terça-feira, 2 de outubro de 2007

Fellini

Esse é o primeiro post da série de bandas brasileiras (especialmente paulistas) de pós-punk. E começando com a que mais traduz o espirito desse gênero musical tão independente e ácido.

O Fellini surgiu, em 1984, como uma forma de Thomas Pappon sair de trás do palco (ele era baterista de duas bandas importantes: Smack e Voluntários da Pátria) para tocar baixo. E nisso Pappon convidou Cadão Volpato pra escrever as letras. Essa dupla, na minha opinião parcial, é uma espécie de Lennon/McCartney do rock brasileiro. E com a adição de Jair Marcos na guitarra e Ricardo Salvagni na bateria, o Fellini (nome retirado do grande diretor de cinema Federico Fellini e/ou do disco dos Stranglers chamado Feline).

Só pra se ter noção, os organizadores das coletâneas que sairam com as bandas de pós-punk oitentista paulistas, pegaram quatro faixas do Fellini: "Zum Zum Zazoeira" e "Rock Europeu" no The Sexual Life of the Savages; "Funziona Senza Vapore" e "Teu Inglês" no Não Wave.

"O Adeus de Fellini", primeiro e irônico disco, foi lançado em 1985 e puxava muito mais pro pós-punk do que os discos seguintes. E por falar nisso, esse é um disco que não deve em absolutamente nada pra grandes bandas dessa época (tanto inglesas como americanas). É um disco com músicas arrebatadoras, letras surreais e violentas (eu vejo seu corpo sendo imolado na tevê) e dá pra sentir na voz de Cadão toda a urgência e tensão que um vocalista de uma banda de pós-punk precisa ter.

No "Adeus de Fellini" eu posso destacar "Rock Europeu", que é a única faixa que o Fellini (quando voltou) ainda tocava, "Bolero 2", que é a minha favorita, "Nada", que fala sobre nada mesmo e "Zaüne", cantada em alemão e escrita por Pappon.

"Fellini só Vive 2 Vezes", lançado em 1986, é um disco mais experimental. Fellini, nesse disco, é apenas Cadão/Thomas, sendo que cadão só canta e Thomas toca os instrumentos. Foi gravado num chamado porta-estúdio, com apenas 4 canais. Posteriormente foi mixado num estúdio. Não que isso mude muito! Tem algumas faixas muito interessantes desse disco, que já mostra pra que lado a banda queria trilhar (um "samba do inglês doido", diria eu), como "O Padre Hippie", "Todos os Dias da Semana" e "Tabu".

As letras de Cadão, aqui, tomam um rumo muito mais surreal e poético que no disco anterior. Por Cadão ser um jornalista talvez isso fosse mais fácil do que a gente pensa, não sei. Ele também, como eu li numa entrevista, é um "ultra-romântico" (palavras de Thomas). Nesse disco ainda é sentido a influência do pós-punk com a pitada do samba paulista.

Estamos em 1987 agora, a 20 anos atrás. Nesse ano incrivel, onde foram lançados os discos Substance do New Order e Never Let me Down do Bowie, aqui no Brasil, além de mim, era lançado o disco "3 Lugares Diferentes".

Aqui é impossivel não notar a influencia do Samba (digo, do samba paulista, aquele do Adoniran, trem das 11 horas, sabe?). A gaita é muito utilizada nesse disco, e dá um som muito fascinante pras canções. Imagine "Teu Inglês" sem o solo de gaita?

Logo na primeira faixa, "Ambos Mundos", começa com alguém falando sobre a música e como ela está se tornando fácil ("e se você quer coisa fácil vá trabalhar em banco"). Música não é pros preguiçosos. Tem que batalhar. E eu concordo com tudo isso. E após esse sampler muito bem colocado nós começamos com um solo lindo de gaita e a bateria entra toda pós-punk.

Antes de continuar, quero dizer que esse disco é de uma beleza imensa, com a junção perfeita do pós-punk com a cultura boêmia paulista. Se eu escolhesse um disco pra representar São Paulo, seria esse. Tem a industrialidade do pós-punk, a boêmia do samba paulistano, as letras caóticas como as ruas, e a gaita como parques verdes no cinza absoluto do nosso céu e prédios.

Isso posto, continuo dissertando: "Teu Inglês" é a faixa mais paulista, e a minha favorita do Fellini. "La Paz Song", "Rio Bahia", "Lavore Stanca" e mesmo "Ambos Mundos" servem pra demonstrar a universalidade que São Paulo tem, mesmo não sendo essa a proposta do Fellini (acho que estou delirando, sei lá). "Zum Zum Zazoeira" é a junção perfeita do gênero do Fellini, impossivel não sambar ao som de Zum zum zum zum zum zazoeiraaaa.

O quarto disco da banda, "Amor Louco" (nome de um livro do surrealista André Breton e que traduz bem o disco) foi lançado em 1989. Para a banda, esse disco é o melhor, mas sem tirar o mérito dos outros discos.

Já começa com um pós-bossa-electro em inglês chamado "Chico Buarque Song", uma referência de provavel influencia. Começa maravilhosamente bem. E continua assim, com referência também a Adoniram ("Joga as cascas pra lá"), viagem de LSD e até Deus. E eu imagino: como ninguém nunca tinha pensado nisso antes? Imagine você que ao invés dos Titãs terem virado bregas a la Roberto Carlos eles sugassem o samba paulistano? Ou o Ira? Por mais que eu ame Ira e Titãs, eles são um produto cultural brasileiro, não mais paulista. Fellini se manteve sempre paulistano. Cada música é perfeita pra se ouvir na Avenida Paulista, ou no centro da cidade, na saída do Ibirapuera, perto do Minhocão...

E queria discorrer sobre o último disco do Fellini, "Amanhã é Tarde", mas ainda não o ouvi inteiro. Parece bem mais com The Gilbertos, "banda" de Thomas.

Fellini é uma das bandas mais lo-fi que o Brasil produziu na época em que ser lo-fi era realmente muito mais dificil. E não era lo-fi porque queriam, e sim por necessidade. Eram também independentes, lançaram os três primeiros discos no selo da "Baratos Afins" (localizada na galeria do Rock) e o "Amor Louco" pela Wop Bop.
A banda acabou e voltou inumeras vezes, e o ultimo retorno foi em 2003, no Tim Festival, junto com o White Stripes (que na época bombava como novidade).
Após o fim da banda, Thomas foi morar em Londres e lá montou a banda The Gilbertos. Em 1992 (acredito que quando o Fellini "acabou"), os 3 menos Thomas formaram o Funziona Senza Vapore, banda essa que não durou o ano de 92 e a master do disco foi perdida. Só 10 anos depois a master foi recuperada e podemos ouvir as poesias de Cadão nessa banda interessante que teve até uma faixa que Chico Science fez cover no seu disco mais famoso ("Afrociberdelia").

Planos de retorno, pelo que parece, nunca mais. Fellini só viveu algumas vezes, agora deixem-os descansar e criem suas próprias músicas!

Pra saber mais da história da banda, recomendo:
MOFO - Site bem legal com várias colunas sobre uma porrada de bandas legais.

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